Intervenção do Senhor Presidente da Câmara
• Senhor Presidente da Assembleia Municipal,
• Senhor Representante da Associação 25 de Abril,
• Exmªs Autoridades Civis e Militares Presentes,
• Senhores Vereadores,
• Senhores Deputados Municipais,
• Senhores Presidentes de Junta,
• Senhores Convidados,
• Filarmónicos da Sociedade Artística e Musical Carvalhense,
• Minhas Senhoras e Meus Senhores”.
Neste dia em que evocamos a revolução de Abril não é suficiente que se relembrem os acontecimentos e os factos, agora já históricos, que se aborde as causas que estiveram na sua origem, nem tão pouco, faz sentido que nos questionemos se Abril valeu a pena.
Todos os indicadores económicos e sociais, da educação à saúde, da segurança social à esperança de vida, da habitação ao consumo, da cultura à participação cívica, demonstram e justificam, não só a tomada de posição histórica que então foi feita, mas também o percurso que fizemos, ainda que, esse caminho, possa ter sido acompanhado de altos e baixos, de melhorias e progressos desejados mas não verificados e atingidos.
Como escreveu o professor EDUARDO LOURENÇO no seu LABIRINTO DA SAUDADE e o vem repetindo nas suas sábias intervenções públicas CHEGOU O TEMPO DE NOS VERMOS TAL COMO SOMOS. Mais do que os números e o seu tratamento estatístico, importa olhar para além deles e sabermos que sociedade somos hoje, que identidade construímos, onde estamos, que valores definimos como primordiais, que essência é a nossa e só assim, poderemos acertar passo com o resto do mundo e preparar o futuro.
Estamos hoje, como nunca tinha historicamente acontecido, mais ligados à Europa e ao mundo; nós, que fundámos e iniciámos o moderno mundo globalizado, somos agora, depois de décadas de afastamento, seus participantes de facto e de direito, recebendo e dando o que este tem de bom e de mau.
É a hora do encontro com a realidade. Mal ou bem construímos o tempo e tecemos a nossa teia.
Participamos, no entanto, de uma sociedade cuja alienação pelo consumo se instalou, onde o sentido do efémero tomou conta do nosso quotidiano, onde arredamos o pensamento e as ideias pela manifestação constante da verbalização individualista das nossas emoções, onde nos expomos de forma pouco cautelosa e onde a materialidade ultrapassou o sentido da dignidade e, infelizmente, ao contrário do que previu Kant, o homem tornou-se num objecto comercial com um preço.
Desvalorizámos conscientemente os valores que nos diferenciavam a troco de mais e melhores utilidades. Sempre na busca de uma felicidade inatingível que diariamente nos foi prometida como se a prudência e a precaução fizessem parte de uma visão passadista.
Confundimos utopia com virtualidade, quando sabemos que a primeira conduz à acção e a segunda ao seu contrário; mas vivemos num mundo virtual.
Confundimos representação política com expressão individualista e entramos numa espiral de histeria opinativa, pensando que assim reforçamos a nossa liberdade de expressão, mas limitamo-nos a produzir ruído.
Confundimos crescimento com desenvolvimento e colocamos de lado a sustentabilidade das decisões que tomamos.
Insustentável leveza que nos conduziu ao estado de amargura, não tanto pela perda dos bens que desfrutámos, mas pela nítida consciência do tempo perdido e da futilidade das opções assumidas. Vivemos de forma envergonhada por ter desprezado soluções simples, mais compatíveis com um projecto de coesão social e felicidade.
Adoptamos a política como um jogo de poder teatralizado, mediático, que privilegia o secundário ao essencial, que afirma a unanimidade por um modelo único, que dá margem ao individualismo, em detrimento do colectivo e onde o outro existe mas não se lhe reconhece alteridade.
Proclamámos o fim da história como se todos os problemas civilizacionais estivessem assegurados, prosperando em actualização permanente a que nos podíamos entregar.
Insensíveis ao esforço alheio e à legítima ambição de outros povos se quererem afirmar com trabalho árduo que nos habituámos a minimizar.
Neste estado leviano desprezámos a política, remetendo-a para um papel secundário, próprio de diletantes de jogos florais, de natureza improdutiva e como tal desprezível.
Criamos assim a política, sem política, um produto à primeira vista inofensivo, como o café sem cafeína, o cigarro sem nicotina, a cerveja sem álcool, as natas sem gordura, a guerra sem guerra de Collin Powell, enfim, um mundo supostamente puro, asséptico mas desenraízado da sua essência e, contrariando a sua natureza, afinal em estado impuro.
O individualismo é hoje tão exacerbado que o principal direito, como escreve SLAVOJ ZIZEK, é o de não se ser incomodado; inventamos o “ELES” desculpabilizante e esquecemo-nos que a política é missão de todos, envolvimento de todos, participação de todos. A ditadura do “ELES” criou uma sociedade de inocentes culpados que se esquecem, como proclamou EÇA DE QUEIRÓS quando a si próprio se colocou a pergunta sobre quem tinha prejudicado o país, que a resposta era “A PÉSSIMA ADMINISTRAÇÃO DE TODOS, O DESPERDÍCIO DE TODOS”.
A invenção do ser digital, materializado na fita magnética electrónica, acentuou a diferença entre o nós (o povo) e o eles (os políticos) o que, para além da onerosa desculpabilidade que acarreta, faz do nós o que se quer ser, porque o ser digital, assume a cada instante a identidade que quer e melhor lhe convém.
Tornámo-nos espectadores de uma triste realidade que não queremos ver porque acreditamos piamente que estamos inocentes e em nada contribuímos para a sua evidência. Foi o outro, o político, o insensível, que na avidez de protagonismo abalou a doce quietude do nosso bem-estar.
Vivemos um quadro vazio de valores ou, no mínimo, o que vai dar ao mesmo, o sentimento da falta de alternativa de soluções e de alteridade. Esta situação é geradora de um moderno NIHILISMO, o sentimento de ausência de presente e de futuro, o apelo ao vazio, a coisa nenhuma, que remete para todas as possibilidades, sobretudo as mais destrutivas.
Vislumbro, no entanto, ilhas seguras a partir de onde se pode retomar o sentido da essência dos valores que nos construíram e que dinamicamente temos que saber actualizar. Teremos, para as erigir em continentes de esperança, que encontrar novos paradigmas e modelos de participação cívica e de construção de modelos economicamente sustentáveis em que o crescimento impante, imparável e suicidário deixe de ser o objectivo a prosseguir.
Temos que retomar o compromisso social. Encarar o nosso trabalho como contributo de valor acrescentado, socialmente útil, produzido e concebido em função de um desígnio comum de relevante interesse público. Abandonar as práticas hedonistas do lucro pelo lucro que irremediavelmente depauperam a Humanidade. Temos de retomar a prática sadia do “construir”.
É necessário refundar as estratégias e os caminhos que nos levem de novo aos princípios seguros da liberdade, da igualdade e da fraternidade. O actual modelo está esgotado nas suas premissas.
Para isto temos que verter para a política o sentido de missão, dar-lhe ética, consciência, pragmatismo e, sobretudo, reiventá-la como acção colectiva, de interesse geral que a todos respeita e assim devolver-lhe seriedade, competência e responsabilidade. De todos, para todos. Aos partidos, instrumentos essenciais e indispensáveis da vida democrática, cabe aqui um papel importante: recolher participações, escolher os melhores, pensar, construir programas de ideias, colocar o interesse colectivo à frente de todos os outros e impor a política e a legitimidade democrática à economia.
Não podemos aceitar a ideia que vivemos em crise permanente porque esta faz parte do sistema. A crise está em nós, vive em nós, somos nós que a sentimos, e portanto a nós nos cabe resolvê-la, se assim formos capazes e havemos de sê-lo.
É imprescindível que voltemos às bases e ao essencial: como salientou ADAM SMITH: só contrariando os nossos interesses egoístas e repondo o nossos deveres sociais benévolos é que podemos “produzir entre a humanidade aquela harmonia de sentimentos e paixões que compõe toda a sua nobreza e decência”.
É este seguramente o caminho de Abril tal como o concebemos.
Retomemos Abril.
Tenho dito.
Comunicado - GAP - 26-04-2012